'Tive dor de barriga, diarreia'Ana Santana contou que
certa vez, sem dinheiro para comprar água potável, precisou beber a água que
apanhou no chafariz. "Tive dor de barriga, diarreia. Fui bater no posto de
saúde. Lá em casa, todo mundo adoeceu", disse a dona de casa.
Aldo Dantas deixou o trabalho de marceneiro
para
fazer entrega de água (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Como entregador de água, sou meu próprio patrão e ganho R$ 800
livres de desconto"
Aldo Dantas,
ex-marceneiro
Apesar da situação caótica, há quem lucre com a falta d'água. Aldo Dantas, de
35 anos, trabalha desde a adolescência como marceneiro. Porém, faz dois anos que
trocou de profissão. "Com madeira, eu trabalhava para os outros e ganhava um
salário mínimo. Com os descontos, ficava com uns R$ 500 para passar o mês.
Agora, como entregador de água, sou meu próprio patrão e ganho R$ 800 livres de
desconto", revelou.
Aldo diz que não faltam clientes na cidade. O único gasto é abastecer sua
motocicleta. Ao veículo, ele adaptou um reboque para puxar uma carroça que leva
um galão com 240 litros de água, que ele diz ser de Natal e comprado de um
atravessador. "É boa, quase mineral. Se a entrega for aqui na cidade mesmo,
custa R$ 18. Se for na zona rural, mais afastada, cobro R$ 23", contou.
IpueiraEm Ipueira, cidade que também fica no Seridó
potiguar, os problemas com a falta d'água se repetem. O colapso no abastecimento
levou a prefeitura a instituir um "cartão vale água". Com ele, cada residência
tem direito a 120 litros de água potável por semana. O controle passou a vigorar
há três meses e já virou caso de polícia. Osawa Brasil, servidor público que
controla a distribuição de água potável, já foi ameaçado de levar uma surra por
um morador.
Ipueira está com colapso
no abastecimento desde agosto. A Caern diz que o abastecimento só será
normalizado quando tiver capacidade de retirar água das barragens da região.
São José do
SeridóQuatro quilômetros é a distância que separa a população
de São José do Seridó do sonho de acabar com a constante falta d'água. A
tubulação do novo sistema adutor da cidade era para ter sido entregue no dia 19
de novembro do ano passado, mas um erro no projeto atrasou a conclusão da obra.
Segundo a Caern, o novo sistema de captação, adução, tratamento e reservação do
sistema de abastecimento de São José deve ser concluído em setembro de 2014.
Placa na entrada da cidade mostra que obra
tinha
que estar concluída (Foto: Anderson Barbosa/G1)
A Caern explicou ao
G1 que, durante a execução do projeto, a
empresa contratada observou que a geologia do solo, bastante rochoso, impedia o
andamento do plano original. Por isso, em setembro, a obra foi suspensa para uma
readequação. As modificações foram enviadas à Fundação Nacional de Saúde
(Funasa), responsável pela análise e liberação dos recursos, em novembro do ano
passado.
Essa readequação vai custar R$ 400 mil a mais na obra. "Originalmente, os
recursos tinham a ordem de R$ 2,7 milhões, e com a readequação foram para R$ 3,1
milhões, tendo sido executado R$ 1 milhão na construção de uma adutora por
gravidade, que está hoje 70% concluída. O dinheiro a ser liberado será usado
para finalizar essa adutora e, ainda, a execução de dois reservatórios elevados,
uma Estação de Tratamento de Esgotos e uma adutora por recalque", diz a Caern em
nota emitida por sua assessoria de imprensa.
Adutoras, barragens, cisternas e dessalinizadoresA
assessoria de comunicação do governo do estado informou que a governadora
Rosalba Ciarlini preside o Comitê Gestor de Avaliação e de Combate à Seca, que
semanalmente se reúne para monitorar a execução das ações estratégicas
realizadas com o apoio das secretarias estaduais, do Corpo de Bombeiros e da
Defesa Civil. Dentro das ações, está a construção de mais de 700 quilômetros de
adutoras, 3.400 barragens submersas e 17 mil cisternas, além da recuperação de
60 dessalinizadores e da perfuração de mais de 200 poços em vários
municípios.
A comunicação do governo citou como exemplo um incremento de mais 22
quilômetros de adutora. A perfuração de outros 12 poços no Sistema Adutor
Monsenhor Expedito deve passar a fornecer, nos próximos meses, uma oferta de 750
metros cúbicos a mais de água por hora, um aumento de aproximadamente 50% na
produção, que deverá beneficiar mais de 240 mil pessoas em 30 municípios da
região central e agreste do Rio Grande do Norte.
Quando entrar em
operação, a adutora Monsenhor Expedito deve fornecer 2.200 metros cúbicos de
água por hora, dobrando sua capacidade. A previsão é que neste mês a obra inicie
sua fase de testes e seja inaugurada em janeiro de 2014.
No dia 28 de novembro, foi publicada no Diário Oficial da União a
transferência de R$ 13,5 milhões do governo federal para o estado poder
contratar obras da adutora de engate rápido em Pau dos Ferros, na região oeste.
Com a publicação, o governo afirmou que será iniciado o processo de contratação
da empresa que vai realizar as obras da adutora em caráter emergencial. "Os
recursos serão liberados pelo Ministério da Integração, através da Defesa Civil
Nacional, para uma conta específica da Defesa Civil Estadual, que é vinculada à
Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania (Sejuc)", diz a assessoria do
Caern.
"Pelo projeto, a captação da água será na cidade de Itaú, a partir da adutora
do alto oeste, do subsistema Santa Cruz-Apodi. A adutora, que terá 43
quilômetros de extensão, levará água até o município de Pau dos Ferros,
beneficiando diretamente 28 mil pessoas residentes na cidade e indiretamente 200
mil pessoas dos municípios vizinhos, que também usufruem da água de Pau dos
Ferros", acrescentou a assessoria.
Ozawa Brasil mostra dessalinizador que a prefeitura
de Ipueira ganhou para tratar a água que é servida à população (Foto: Anderson
Barbosa/G1)